INTRODUÇÃO
A fratura instável distal do rádio é considerada lesão complexa, sendo seu tratamento controverso. O método convencional para tratar essa fratura é a redução fechada, seguida de imobilização gessada. Este método de tratamento freqüentemente leva a resultado insatisfatório, devido à perda da redução dos fragmentos e, conseqüentemente, compromete a anatomia e função do punho(3,7,8,13).
A fixação externa das fraturas distais do rádio foi popularizada por Anderson & O’Neil durante a Segunda Guerra Mundial(2). Na década de 70, Vidal et al. introduziram o conceito de ligamentotaxia, estendendo esse tipo de tratamento para as fraturas intra-articulares distais do rádio(20). Atualmente, vários autores recomendam essa técnica(1,4-6,10-12,17,21).
O objetivo deste estudo é apresentar os resultados obtidos em grupo de pacientes, previamente selecionados, que, por apresentarem fraturas cominutivas e/ou articulares distais do rádio, foram tratados com redução fechada e fixação externa.
CASUÍSTICA E MÉTODOS
No período de janeiro de 1985 a agosto de 1996, submete-ram-se a tratamento cirúrgico com redução incruenta e fixação externa dez pacientes com fratura cominutivas e/ou articulares distais do rádio.
Dos pacientes reavaliados, seis (60%) eram do sexo masculino e quatro (40%), do feminino. A idade variou entre 21 e 61 anos, com média de 43 anos. Tanto o punho direito quanto
TABELA 1 Características gerais dos pacientes submetidos a fixação externa quanto a idade, sexo, lado operado e tipo de fratura


o esquerdo foram acometidos em cinco (50%) pacientes. O tempo de seguimento mínimo foi de cinco meses e o máximo, de 19, com média de 11 meses.
As fraturas foram classificadas conforme Frykman(7) (fig. 1). Uma fratura foi do tipo II, uma do tipo IV, uma do tipo VII e sete do tipo VIII. As características gerais desses pacientes avaliados encontram-se na tabela 1.
Todos os pacientes foram tratados nas primeiras 48 horas após o traumatismo. No atendimento inicial, após as radiografias em projeções ântero-posterior e lateral, o punho era imobilizado com tala gessada volar (fig. 2).
O sistema de fixação externa utilizado constitui-se de duas plataformas retangulares com 1,5cm de largura por 4,5cm de comprimento, contendo três perfurações para transfixação dos pinos de Schanz. As plataformas são unidas a uma barra rosqueada através de juntas que permitem mobilidade de até 15º em todas as direções. Este sistema permite alongamento de 3,5cm entre as plataformas. Os pinos de Schanz para fixação no rádio eram de 3mm de diâmetro e apresentavam 10cm de comprimento, com 3cm de rosca. A fixação distal era realizada no 2º metacarpiano com fios de Schanz de 2,5mm de diâmetro, com 6cm de comprimento e 2cm de rosca.
Os pacientes foram submetidos às anestesias do tipo bloqueio de plexo braquial ou geral. A assepsia do membro afetado foi realizada com álcool iodado. Em seguida, realiza-ram-se duas incisões de 0,5cm na face dorsorradial do antebraço, proximal ao foco da fratura. Utilizando-se um perfurador elétrico funcionando em baixa rotação, introduziramse dois pinos de Schanz em ângulo de aproximadamente 90º em relação à diáfise do rádio, ajustando-se uma plataforma aos pinos de fixação. A seguir, realizou-se tração na extremidade da mão, com redução parcial da fratura, fixando-se outros dois pinos na face dorsorradial do 2º metacarpiano, que ficaram acoplados e estabilizados à plataforma distal. Logo após, completou-se a redução da fratura com a manipulação do sistema, mantendo-se flexão palmar do punho em torno de 15º e desvio ulnar de 20º (fig. 3). Durante o procedimento, foram realizados controles radiográficos para determinar a redução da fratura. Nas primeiras três semanas, foi feita imobilização complementar com tala gessada volar.
A avaliação funcional dos casos foi realizada conforme os critérios clínicos estabelecidos por Gartland & Werley(8), que levam em conta a presença de dor, deformidade residual, mobilidade articular e complicações pós-cirúrgicas.
Todos os pacientes foram submetidos a controle radiográfico no pré e intra-operatório, no pós-operatório, na 2ª e 5ª semanas e na ocasião da retirada da fixação externa, a qual ocorreu em média com seis semanas, variando de cinco a nove semanas (fig. 4).
A avaliação radiográfica foi realizada de acordo com os critérios de Lidström(13), modificados por Sarmiento et al.(16). Foram realizadas as medidas das principais deformidades destas fraturas, tais como desvio radial, angulação dorsal e encurtamento do rádio em relação à ulna. Os valores normais propostos por esses autores são ângulo volar do rádio distal de 11º (0-18º), ângulo de desvio radial de 23º (10-30º) e comprimento radial de 9mm (8-14mm), além da ulna distal. Os resultados radiográficos foram divididos em quatro graus.
RESULTADOS
Todos os casos tratados, segundo a técnica proposta, evoluíram para a consolidação óssea. Os resultados foram excelentes em seis (60%) pacientes, bons em três (30%) e regular em um (10%). Os resultados radiográficos finais foram considerados de grau I em sete (70%) pacientes e de grau II em três (30%).
Duas complicações ocorreram diretamente relacionadas ao fixador externo; um paciente apresentou infecção superficial em um pino proximal do rádio e o outro, parestesia na região do ramo superficial dorsal do nervo radial.
Não foi observada nenhuma perda da redução da fratura no pós-operatório imediato, bem como no período de permanência do fixador externo.
DISCUSSÃO
A freqüência da fratura instável distal do rádio é elevada. A região metafisária distal do rádio é bem vascularizada e a consolidação óssea dessa fratura acontece normalmente. A redução incruenta, seguida de imobilização gessada, é o procedimento de rotina utilizado no tratamento dessa lesão(3,7, 8,13,16). A perda da redução freqüentemente pode ocorrer devi-do à instabilidade dos fragmentos, levando a alterações anatômicas e funcionais do punho. Portanto, a indicação do tratamento operatório da fratura instável distal do rádio é em decorrência da necessidade de manter redução adequada no período de consolidação. A fixação externa dessa fratura possibilitaria melhores resultados funcionais do que o tratamento conservador(1,9,10,17,18,21).
A utilização do fixador externo para estabilização dessa fratura pareceu-nos o tratamento apropriado para os pacientes selecionados. O ato operatório segundo a técnica preconizada transcorreu sem dificuldades e o manuseio do instrumental de fixação externa aconteceu sem intercorrências.
O sistema de fixação externa permitiu não somente correções angulares, mas também correções do comprimento radial e do alinhamento da superfície articular, promovendo fixação semi-rígida, suficiente para manter a redução até a consolidação óssea.
O tempo de permanência do fixador externo foi em média de seis semanas, coincidindo com o proposto por vários autores(1,14,15,18).
Os resultados obtidos em nosso trabalho foram bons e excelentes em 90% dos pacientes, sendo similares aos da literatura(1,4,18,19).
A fixação externa nas fraturas instáveis distais do rádio manteve redução adequada no período de consolidação, levando a resultados funcionais satisfatórios. Esta técnica, simples de ser realizada, é um método útil de tratamento, além de fornecer bons resultados.
REFERÊNCIAS
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2. Anderson, R. & O’Neil, G.: Comminuted fractures of the distal end of the radius. Surg Gynecol Obstet 78: 434-440, 1944.
3. Bacorn, R.W. & Kurtzke, J.F.: Colles’ fracture. A study of two thousand cases from the New York State Workmen’s Compensation Board. J Bone Joint Surg [Am] 35: 643-658, 1953.
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8. Gartland, J.J. & Werley, C.W.: Evaluation of healed Colles’ fractures. J Bone Joint Surg [Am] 33: 895-907, 1951.
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