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.: Abril - 1997

Reconstrução dos tendões flexores com o método de Indiana*

RAMES MATTAR JÚNIOR, RONALDO J. AZZE, SERGIO Y. OKANE, REGINA STARCK, MARCELO R. REZENDE, LUIZ K. KIMURA, EMYGDIO J.L. PAULA, EDUARDO A. PEREIRA5, ANA CRISTINA CAMILLO

 INTRODUÇÃO

As reconstruções dos tendões flexores ainda são um desafio para o cirurgião. Várias pesquisas ainda procuram as respostas para tentarmos melhorar, ainda mais, os resultados funcionais.

Sabemos que o tendão cicatriza por combinação de atividade celular intrínseca e extrínseca(2-4). Após a reconstrução, mantendo-se o tendão sem nenhuma solicitação mecânica, este cicatrizará em aproximadamente oito semanas, com predomínio de atividade celular extrínseca, aderências, colágeno desorganizado e resistência mecânica pequena(14,15). Os tendões submetidos a solicitação mecânica irão cicatrizar mais rapidamente, com predomínio de atividade intrínseca, me-nor aderência, colágeno organizado e maior resistência me-cânica(7).

Vários estudos revelam que, em membros superiores não edemaciados, os tendões flexores são submetidos a força de cerca de 500Gm durante a flexão passiva, 1.500Gm durante preensão leve, 5.000Gm durante preensão forte e 9.000Gm na pinça polpa a polpa(21,23). É difícil avaliar o aumento necessário da força para promover a movimentação de dedos edemaciados(23).

Da mesma forma, alguns estudos revelam que a resistência da sutura com fio multifilamentado é proporcional ao número de passagens que cruzam o sítio da lesão e ao tempo. Alguns autores estimam alguns valores quanto a essa resis-(9-11,16-20,23), que, de forma aproximada, estão referidos no quadro 1.



As técnicas com seis passagens de fio seis zeros, como a técnica de Savage(19), são mais difíceis e podem comprometer a vascularização e cicatrização do tendão. As técnicas com quatro passagens são mais simples e, quando combinadas com a sutura contínua do epitendão, tornam-se seguras quanto à resistência para suportar a movimentação ativa, em preensão leve, durante o período de cicatrização em dedo não edemaciado(21,23).

Com o objetivo de estudar as possíveis vantagens do método de Indiana, baseado em tenorrafia com quatro passagens de fio quatro zeros e reabilitação com movimentação ativa precoce, analisamos nossos resultados obtidos com essa técnica.

CASUÍSTICA
Foram tratados 14 pacientes portadores de lesões dos tendões flexores agudas, causadas por ferimentos incisos, sen-do oito na zona II, um na zona III, um na zona IV e quatro na zona V. Em cinco pacientes a reconstrução foi realizada até seis horas da lesão, em cinco na primeira semana e em quatro na segunda semana. Foram realizadas 54 tenorrafias, em 32 dedos de nove pacientes do sexo masculino e cinco do feminino. A idade variou de 12 a 57 anos, com média de 32 anos. O tempo de seguimento variou de nove a 20 meses, com média de 13 meses.

MÉTODO
Após via de acesso habitual para os tendões flexores nas diversas zonas, tomando-se o cuidado para preservar os túneis osteofibrosos, polias e o sistema de nutrição sinovial e vascular dos tendões, os cotos proximais e distais foram individualizados e estabilizados com auxílio de agulhas hipodérmicas 30 x 7.

Todos os pacientes foram submetidos ao método de tenorrafia preconizado por Strickland, denominado, pelo autor, como Indiana method(23). Esse método consiste de um ponto de Tajima, associado a um ponto central (tipo Kessler modificado), ambos com fio quatro zeros de polipropileno e uma sutura contínua no epitendão com fio seis zeros (figs. 1, 2 e (23).

Após a tenorrafia e hemostasia criteriosa, a ferida operatória era fechada, de forma habitual, e o membro superior imobilizado, com o punho e metacarpofalangianas em flexão, e as interfalangianas em extensão.

O protocolo de reabilitação baseou-se em: combate ao edema; manutenção do punho e metacarpofalangianas em flexão, e as interfalangianas em extensão, quando em repouso; flexão passiva dos dedos antes da extensão passiva do punho; e flexão ativa controlada dos dedos após redução do edema.

A manutenção da posição no pós-operatório e o controle da movimentação ativa são auxiliados com o uso de órtese (figs. 4 e 5).

O método de avaliação baseou-se no método TAM (Total Active Motion), somatória do grau de flexão das interfalangianas e metacarpofalangianas subtraindo-se a perda de extensão destas, e TAM modificado por Strickland – somatória de flexão das interfalangianas subtraindo-se a perda de extensão destas. Foram considerados bons resultados quando o TAM for superior a 180º ou TAM modificado por Strickland acima de 90º  (21,22)

RESULTADOS
Obtivemos valores de TAM que variaram de 118º a 270º (média de 215º) e TAM modificado por Strickland de 68º a 180º (média de 146º). Segundo os critérios adotados, a reconstrução dos tendões flexores, pelo método de Indiana, proporcionou boa capacidade de flexão em 30 dos 32 dedos envolvidos (93,7%).

Não houve nenhuma complicação como ruptura, infecção ou deiscência de sutura (figs. 6, 7 e 8).

DISCUSSÃO
Vários fatores fazem com que o tratamento das lesões dos tendões flexores seja um desafio para o cirurgião. A nutrição dos tendões flexores nos túneis osteofibrosos é crítica, a anatomia dos vínculos é complexa, assim como a relação de deslizamento e excursão entre o flexor superficial e profun-(1,8,13). Além disso, os tendões flexores agem em várias articulações. Todo esforço deve ser realizado para evitar a ruptura do tendão reconstruído e, por outro lado, a formação de aderências através da cicatrização extrínseca. A imobilização e o repouso sempre foram utilizados com o objetivo de evitar rupturas. Hoje sabemos que a falta de solicitação mecânica induz a cicatrização extrínseca e aderências(2-5). O princípio da utilização de tenorrafias com quatro passagens de fio quatro zeros baseia-se em proporcionar maior resistência mecânica, permitir a movimentação passiva e ativa (9-12,14,16,23,24).

Um dos argumentos contra a utilização de suturas tendinosas, com mais fios, era de que poderia haver maior comprometimento vascular do tendão. Assim como vários auto-res, não concordamos com essa afirmação, já que não há comunicação entre os vasos dos diversos sistemas vinculares, na zona II, e a vascularização do tendão nas outras zonas não é tão crítica(1).

Quanto à nutrição sinovial, sabemos que existem canalículos na porção volar dos tendões e que o fluxo sinovial é acelerado pela movimentação dos dedos. Portanto, as suturas mais resistentes, que permitem movimentação mais intensa e precoce, vão melhorar a nutrição sinovial do tendão(1,3,13).

Decidimos utilizar e avaliar o método de Indiana(23) por tratar-se de técnica simples, que associa um ponto periférico de Tajima, que não provoca grande estrangulamento das fibras, a um ponto central do tipo Kessler modificado. A sutura contínua do epitendão, além de proporcionar melhor afrontamento, aumenta ainda mais a resistência mecânica. Obviamente, só é possível realizar esse tipo de sutura em tendões cilíndricos e não friáveis. Os pacientes vítimas de lesões incisas, tratadas na fase aguda, foram escolhidos, para a pre-sente análise, por se tratarem daqueles com indicação máxima do método.

Todos os pacientes foram encaminhados ao Serviço de Terapia da Mão, onde eram submetidos a tratamento para controle do edema. A movimentação passiva iniciava-se no pósoperatório imediato. A movimentação ativa só era iniciada após a redução do edema, já que o esforço mecânico para fletir um dedo edemaciado poderia provocar ruptura da reconstrução. Na grande maioria dos pacientes, iniciamos a movimentação ativa do 7º ao 10º dia de pós-operatório. Com este método de tratamento não tivemos nenhuma ruptura como complicação. Com a solicitação mecânica, há maior produção de DNA relacionado com a cicatrização entre os cotos tendinosos (intrínseca), menos aderências e melhor resistência mecânica.

Obtivemos bons resultados quanto à capacidade de flexão em 93,7% dos dedos envolvidos. Considerando os métodos de avaliação TAM (Total Active Motion) e TAM modificado por Strickland, 30 dos 32 dedos envolvidos apresentavam valores acima de 180º e 90º, respectivamente. Tais resultados fazem-nos acreditar que é possível obter melhores resultados funcionais, nos pacientes vítimas de lesões tendinosas agudas, submetidos a tenorrafias, com técnicas com maior resistência mecânica, e reabilitação com movimentação ativa precoce.

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