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.: Agosto - 1995

Osteossíntese das fraturas do processo odontóide

HELTON L.A. DEFINO, ANDRÉS EDGAR RODRIGUEZ FUENTES

INTRODUÇÃO

O tratamento das fraturas do processo odontóide, especialmente as do tipo II de Anderson-D’Alonzo(3), permanece controvertido devido ao elevado índice de não consolidação(9,21,23).

O tratamento conservador é o classicamente indicado nessas fraturas e a literatura apresenta índices muito variados de não consolidação, situados na faixa de 0 a 82%, estando a média ao redor de 25%(2,5). Essa incidência de não consolidação motivou alguns autores a preconizarem a artrodese posterior C1-C2 como tratamento primário dessas fraturas, que, todavia, apresenta como desvantagem a limitação dos movimentos da coluna cervical(3,11).

A osteossíntese dessas fraturas foi uma alternativa de tratamento mais recente, idealizada por Magerl, em 1979(10), e publicada pela primeira vez por Böhler, em 1981(6,21). Essa alternativa de tratamento preserva a mobilidade do segmento C1-C2, não utiliza grandes imobilizações no pós-operató-rio e oferece condições de estabilidade mais favoráveis para que ocorra a consolidação da fratura.

 A osteossíntese do processo odontóide é muito difundida e apresenta grande aceitação nos países do leste europeu, onde é indicada rotineiramente no tratamento dessas fraturas(1,7,8,12,18,20), e parece apresentar crescente aceitação nos Estados Unidos, pelos relatos recentes que têm abordado o tema(9). Contudo, ainda é muito pouco difundida em nosso meio.

O objetivo deste trabalho é apresentar a técnica de osteossíntese do processo odontóide, suas indicações e nossa experiência pessoal com a utilização do método.

MATERIAL CLÍNICO
No período de janeiro de 1990 a janeiro de 1992, foram operados três pacientes, dois do sexo feminino e um do masculino, com idade que variou de 22 a 72 anos (média de 40,66 anos).

A causa da lesão foi acidente automobilístico (um paciente), acidente de moto (um paciente) e queda da própria altura (um paciente), sendo que um deles apresentava fratura do punho como lesão associada e era portador de doença psiquiátrica.

Dois pacientes apresentavam fratura do tipo II e um, fra-tura do tipo III, segundo a classificação de Anderson-D’Alonzo. Todos mostravam quadro neurológico normal.

A indicação de cirurgia foi a presença de fratura tipo II (dois pacientes) (fig. 1) e a impossibilidade do uso de imobilização externa (um paciente) (fig. 2).

TÉCNICA CIRÚRGICA
A osteossíntese do processo odontóide é indicada para as fraturas do tipo II de Anderson-D’Alonzo, que apresentam desvio ou tendência à perda de redução e naquelas situações em que não possa ser aplicada a imobilização externa (pacientes psiquiátricos, idosos, politraumatizados ou lesões associadas). As fraturas do tipo III são consideradas como indicação relativa para a aplicação do método.

A cirurgia é realizada com o paciente em decúbito dorsal e é necessária a utilização de dois intensificadores de imagem, que são colocados para controle da posição dos parafusos nos planos frontal e sagital (fig. 3). O posicionamento do paciente na mesa cirúrgica é realizado com a hiperextensão da cabeça, que permite a redução da fratura e também facilita o acesso cirúrgico (fig. 1).

O acesso cirúrgico pela via anterior é aquele recomendado por Robinson-Smith(6), através de incisão transversal sobre o músculo esternocleidomastóideo. Por meio de dissecção romba no sentido proximal, abordamos C2 e identificamos através do intensificador de imagem o disco C2-C3, onde fazemos pequena incisão no ligamento longitudinal anterior, ao nível da borda ântero-inferior de C2.

A partir da borda ântero-inferior de C2, paramediano e em direção à ponta do processo odontóide, é introduzido um fio de Kirschner de 2,0mm, com a finalidade de estabilizar temporariamente o fragmento da fratura (fig. 4). Com a fratura temporariamente estabilizada pelo fio de Kirschner, é preparado, ao lado do fio e em posição simétrica, o orifício para introdução do primeiro parafuso, cuja finalidade é a de realizar compressão no foco de fratura. Pode ser utilizado parafuso cortical de 3mm ou esponjoso de 4,0mm; a escolha do tipo de parafuso a ser utilizado define os passos da osteossíntese. Após a introdução do parafuso, o fio de Kirschner é retirado e em seu lugar é introduzido o segundo parafuso (fig. 5).

No período pós-operatório, é utilizado colar cervical por período de 12 semanas e é permitida a deambulação assim que as condições gerais do paciente a permitam.

RESULTADOS
Os pacientes foram seguidos por período que variou de 12 a 28 meses (média de 18,6 meses). Dois pacientes deambularam no terceiro dia e um, no segundo dia de pós-operatório.

A incapacidade para o trabalho foi, respectivamente, de três, quatro e seis meses, sendo que nenhum paciente apresentou alteração da capacidade para o trabalho após a cirurgia.

A avaliação radiológica mostrou que todas as fraturas consolidaram e não foram observadas alterações nos implantes utilizados (figs. 1 e 2). Complicações gerais ou locais não foram observadas nos pacientes estudados.

DISCUSSÃO
A osteossíntese por meio de parafusos é alternativa relativamente recente para o tratamento das fraturas do processo odontóide e tem apresentado crescente aceitação pelos resultados obtidos e também pelo princípio básico do método, que consiste em estabilizar a fratura sem a necessidade de artrodese do segmento vertebral envolvido ou utilização de imobilizações externas, como halo-gesso ou gesso minerva, que muito interferem nas atividades diárias dos pacientes(1,6,8,12,18,20).

A técnica inicialmente descrita por Böhler(7) preconizava a utilização de dois parafusos para a estabilização da fratura, mas existem autores como Nakanishi(21), Autricque & col.(4) e Pointllard & col.(22) que acreditam ser a utilização de so-mente um parafuso suficiente para estabilizá-la. A idéia da utilização de um único parafuso surgiu entre os japoneses(21), que argumentam ser menor o diâmetro do processo odontóide de sua população em relação ao dos europeus, fato que dificultaria a colocação de mais de um parafuso no seu interior. Schaffler & col.(23), em estudo morfológico do processo odontóide, observaram que o diâmetro dessa estrutura anatômica variou de 7,4 a 12,8 milímetros, fato que explica a impossibilidade da colocação de dois parafusos em alguns pacientes. Do ponto de vista biomecânico, parece que a utilização de dois parafusos seria mais eficiente, pois eles suportariam melhor as forças de rotação geradas pelos ligamentos alares(20).

A osteossíntese do processo odontóide tem apresentado ainda aperfeiçoamentos do ponto de vista técnico. Foram desenvolvidos parafusos canulados e parafusos com dupla rosca(1,13,17), que apresentam algumas vantagens biomecânicas e técnicas para sua colocação. Houve também melhor definição do ponto de introdução do parafuso no corpo de C2 e esses fatos refletem o interesse que a técnica tem despertado(22).

O método apresenta como vantagens a grande estabilidade do foco de fratura, necessita de contenção pós-operatória leve e simples, não limita os movimentos entre C1 e C2, que é local onde grande parte da rotação cervical ocorre, e não é procedimento de grande porte ou invasivo. Deve-se considerar, no entanto, que para sua realização são necessários dois intensificadores de imagens, que em nosso meio é fator limitante, pelas razões já bem conhecidas. É também procedimento tecnicamente complexo e que requer experiência e conhecimento da anatomia desse segmento vertebral e das técnicas de osteossíntese.

Os índices de consolidação das fraturas obtidos por meio da osteossíntese têm sido altamente satisfatórios e superiores aos observados com os métodos conservadores, sem considerarmos ainda que o método é utilizado em fraturas mais complexas. Chiba & col.(10) relataram 93% de consolidação; Pointllard & col.(22), 95%; e Verheggen & Jansen(24), 94,4%.

A não consolidação das fraturas tem sido relatada principalmente em pacientes idosos e portadores de osteoporose(22). Essa associação da osteoporose e não consolidação das fraturas tem sido também observada no tratamento conservador. Hadley & col.(14), numa revisão de 229 pacientes tratados por métodos conservadores, notaram 39% de pseudartrose em pacientes com idade acima de 60 anos e 15% nos pacientes mais jovens.

A presença de osteoporose acentuada, fraturas irredutíveis, pseudartroses, cominuição intra-articular, associação com fratura de Jefferson instável, fratura patológica, fratura do tipo II cominutiva ou oblíqua no plano frontal e fratura do tipo III, com traço oblíquo no sentido póstero-cranial para ântero-caudal, tem sido apontada como contra-indicação para a utilização da osteossíntese do processo odontóide(16).

As complicações relatadas com a osteossíntese do processo odontóide são raras e não têm sido enfatizadas na literatura, tendo ocorrido somente relatos isolados de infecções e hematomas pós-operatórios(22).

A diminuição da mobilidade da coluna cervical, observada por Lind & col.(19) em pacientes submetidos ao tratamento conservador, não foi notada nos pacientes submetidos a osteossíntese(24), mas esses autores viram diminuição dos movimentos entre C2 e C3 e até anquilose desse segmento em alguns pacientes. Não observaram movimentos compensatórios nos outros segmentos da coluna cervical. Chiba & col.(10) relataram, após a osteossíntese, presença de osteófitos entre a segunda e terceira vértebras cervicais, não acompanhados de qualquer manifestação clínica. Apesar dos pacientes não apresentarem qualquer sintoma, a evolução clínica futura desses osteófitos é até o momento desconhecida.

Nossa casuística de osteossíntese do processo odontóide é pequena e nosso objetivo não foi a confrontação de nossos dados com os da literatura, com a finalidade de comparar os resultados obtidos com diferentes técnicas, mas somente a divulgação dessa técnica, que é pouco utilizada e difundida em nosso meio.

Nossa indicação de osteossíntese tem sido reservada para as fraturas instáveis do tipo II de Anderson-D’Alonzo e para as fraturas do tipo III, quando a imobilização externa não possa ser aplicada. Temos ainda, quando possível, oferecido a opção de escolha ao paciente, que decide se prefere utilizar halo-gesso ou gesso minerva por período de três meses ou ser submetido a cirurgia para estabilização da fratura e utilização de somente um colar cervical no período pós-operató-rio.

Nossa impressão pessoal com a utilização do método é favorável, não somente pelos resultados obtidos em nossos pacientes, nos quais tivemos oportunidade de observar a consolidação de duas fraturas do tipo II instáveis, que, segundo a literatura, apresentam grandes possibilidades de não con-solidação(3), mas também pela experiência vivida em centros onde o método é rotineiramente utilizado para a fixação das fraturas do processo odontóide(15); os resultados que pudemos observar foram convincentes, motivo pelo qual a temos realizado e estamos divulgando-a, com o objetivo de servir como mais uma alternativa para os cirurgiões que cuidam desse tipo de fratura, cujo tratamento ainda apresenta muita controvérsia.

REFERÊNCIAS

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3. Anderson, L.D. & D’Alonzo, R.T.: Fractures of the odontoid process of the axis. J Bone Joint Surg [Am] 56: 1663-1674, 1974.

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5. Blockey, N.P. & Purser, D.W.: Fracture of the odontoid process of the axis. J Bone Joint Surg [Br] 38: 794-817, 1956.

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24. Verheggen, R. & Jansen, J.: Fractures of the odontoid process: analysis of the functional results after surgery. Eur Spine J 3: 146-150, 1994.  


 
 

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